um blogue socialmente consciente
emocionalmente irresponsável
19mesesdepois@gmail.com
terça-feira, junho 19, 2007
Improbalibidade estatística [na óptica do Estado Protector]
De acordo com os reguladores e burocratas de hoje, todos nós que nascemos nos anos 60, 70 e princípios de 80, não devíamos ter sobrevivido até hoje, porque as nossas caminhas de bebé eram pintadas com cores bonitas, em tinta à base de chumbo (...)Quando andávamos de bicicleta, não usávamos capacetes. Quando éramos pequenos viajávamos em carros sem cintos e airbags, viajar à frente era um bónus.(...)Saíamos de casa de manhã e brincávamos o dia todo, desde que estivéssemos em casa antes de escurecer. Estávamos incontactáveis e ninguém se importava com isso. Não tínhamos PlayStation, X Box. Nada de 40 canais de televisão, filmes de vídeo, home cinema, telemóveis, computadores, DVD, Chat na Internet. Tínhamos amigos - se os quiséssemos encontrar íamos à rua.
Sempre desejei ter vivido os anos 80. Não que tenha achado uma época particularmente interessante a nível político, histórico ou cultural. Na verdade, só o Michael Knight é que me era próximo. O que eu gostava mesmo era de ter tido uma grande aparelhagem estéreo, com duas colunas enormes, a debitar o melhor do break da zona. Um tijolo, no meu ideolecto.
E, não é que contra todas as hipóteses, parece que alguém lá em cima ouviu as minhas preces. Adaptando o meu sonho aos anos 00, não é que entro no metro e ouço grandes baterias a ecoar no metro. Sem querer sequer questionar a acústica que uma carruagem possa ter, aquilo foi êxtase instantâneo. Procuro logo quem seria aquele mensageiro descido à terra.
Camisola branca com as mangas enroladas para salientar as protuberâncias braçais, volta de ouro a berrar que se olhasse para a camisa aberta até meio do tronco, mão naquele instrumento da modernidade (vulgo telemóvel) a deitar kizomba ou kuduro (que me perdoem os especialistas a ignorância) para cima das pessoas. E não é que ele tem um casaco branco que transforma a camisola em rosa deslavado (estilo dezanovemesesdepois-após-uma passagem-pela lixívia), o que me permite concluir que não tenho a mínima sensibilidade cromática.
É este o homem dos anos 80 dos tempos modernos que gostava de ter sido.