Tinha esperança de poder ver ao vivo Isaac Hayes, infelizmente as voltas foram-me trocadas e isso já não será possível. A música do Black Moses é absolutamente genial, particularmente nos temas mais longos, que são verdadeiras sinfonias. Uma Soul muito soft and smooth but still strong and a bit nasty, ou seja muito mas muito sexy. Contudo afirmar-se que é soul tesuda é de quem só ouve música de meninas. Recuando um pouco no tempo, encontra-se Sam Cooke (alguém que me deixa de joelhos a tremer) ou Otis Redding, esses sim são representantes de uma Soul viril, poderosa sem rodeios, ou seja bem tesuda. Não esquecendo da inevitável Sex Machine.
Neil Young tem 62 anos, toca guitarra com a rage de 20, mas envolta no peso, na mágoa e na sabedoria de mais 42 anos. O cenário do concerto é montado milimetricamente: a enorme ventoínha, o telefone vermelho, o índio e o cavalete de exposição dos quadros (Neil Young faz-se acompanhar com alguma regularidade por Eric Johnson, um pintor que vai fazendo quadros enquanto Young dá o seu concerto. Mais tarde estes quadros são leiloadas na Neil's Garage e o valor reverte para a The Bridge School. A Portugal só vieram os quadros, infelizmente o pintor não veio!), a altura do microfone é medida várias vezes para que nada falhe. E de facto, nada falha, ou se falha nem se dá conta, tal é o poder com que Neil Young nos envolve e nos paralisa.
Na música de Neil Young, tal como na de Mr. Dylan pressente-se um passado de referências comuns, mas que a determinado ponto do caminho evoluíram para sítios diferentes. Há no som rasgado das guitarras ou na melodia da harmónica a evocação de algo primordial, o som que construiu um país e as suas identidades.
O meu entusiasmos com Mr. Dylan não está relacionado directamente com a sua música, mas sim com aquilo que ela evoca! Uma antiguidade esquecida, uma poeira que me entra nos olhos e me faz chorar, os freight trains em que eu também gostaria de ter viajado, um ritmo perdido que me faz abanar a anca como se estivesse num outro tempo.
Vê-lo em concerto a uns metros de distância deixou-me mais apática do que estaria à espera, mas ao mesmo tempo siderada pela seriedade, pela indiferença, pelo simples prazer de tocar música. A frieza e distância com que Mr. Dylan actua é qualquer coisa de mágico, como nos old times. Mr. Dylan e a sua banda estão ali para tocar a sua música e fazem-no de modo sublime.
Tinha sido há umas semanas atrás, que enquanto via o The Wire (a série com a melhor banda sonora que ouvi nos últimos tempos!), em que do rádio do detective McNulty saíam os versos "make me a queen | happy again". Imediatamente reconheci a música, era a maravilhosa Irma Thomas. Procurei a música pelo meu arquivo e não a encontrei. Comecei a duvidar se seria mesmo a Soul Queen de New Orleans... Até que, enquanto preparava o almoço de Domingo, Mr. Dylan começa a falar de Irma Lee!! e na música que Otis Redding gravou "Pain in my heart", apresentando o original: "ruler of my heart" da Irma Thomas (uma das cantoras preferidas de Mr. Dylan e minha também). E nesse momento, em que os primeiros sons ecoam na cozinha reconheço ser de facto a música do detective McNulty e o coração dispara. São esses momentos, estas referências que me fazem venerar Mr. Dylan e ouvir com alguma indiferença hinos como "like a rolling stone" [principalmente o público canta like in the record.]
É um facto! Há uma quantidade infindável de e-mail's enviados por algumas pessoas (entre amigos mais ou menos próximos e demasiados conhecidos) com pedidos de amizade. Entre o Hi5 e o Facebook, ou outros que eu nem sei bem o que são, vou rejeitando todos.
Honestamente e relembrando o Pedro Lomba "alguém que junta 500 "amigos" não acredita na amizade. Encheu a agenda, mostrou a sua agilidade e ficou na mesma." Não quero com isso dizer que não tenha alguns amigos com quem comunico no mundo virtual, mas prefiro que isso seja feito de forma recatada e com a menor exposição pública possível. A amizade é algo infinitamente bom e raro, por essa razão comunico-me com os meus amigos escrevendo-lhes cartas, das manuscritas, devidamente seladas e colocadas no marco do correio. Esta é talvez uma perspectiva muito romantizada da amizade, mas agrada-me que com estes gestos os meus amigos recebam a minha maior dedicação, partilha e carinho.
Por ironia do destino, acabei por ir ao Coliseu ver os The Hives. O facto é que só conhecia 1, 2 músicas e quanto foram tocadas demorei a reconhecê-las. Irritou-me a posse de Mick Jagger sueco, como se não tivessem passado 40 anos. Isso sem sequer ser sublimemente mimada. Mas as crianças de 12, 13, 15 anos que deliravam com o artista, provavelmente não dariam pela diferença.