A meia mulher se calhar ganhou porque tornou-se mulher inteira: chorou, não foi a seca do costume. E tendo sido assim, tornou-se a única novidade absoluta destas eleições (afinal, o "outro" é só meio negro).
Tem havido, na imprensa e na academia, uma discussão muito interessante sobre os méritos do “Estado Garantia” face ao “Estado Providência”. Para quem valoriza a liberdade individual, a escolha teórica é simples. E na prática, como se pode implementar o primeiro? É a isto que o PSD tem de responder quanto antes.
Esquerda e direita sinalizam a existência de um espaço político plural, protegido pelos direitos e garantias de uma sociedade livre. Onde há pluralismo político existe sempre uma esquerda e uma direita, embora o significado substantivo de uma e da outra variem. Recusar situar-se no eixo democrático esquerda-direita equivale muitas vezes à recusa do irredutível pluralismo de uma sociedade livre e ao correspondente sonho (ou pesadelo) de regresso à sociedade fechada, homogénea, estável e tribal.
Esquerda e Direita [ou o que é um governo neoliberal de direita]
Se quisermos dar algum conteúdo à distinção esquerda/direita teremos de pensar na ideia de rectificação das desigualdades. A esquerda é a favor dessa rectificação porque considera moralmente ilegítimas as desigualdade existentes em sociedades hierárquicas, as desigualdades produzidas pelo mercado, as desigualdades de género, etc. A direita, por sua vez, considera que a tentativa para realizar a igualdade protagonizada pela esquerda é contraproducente porque acaba por destruir as tradições que enquadram e dão sentido à vida humana, a espontaneidade do mercado e a própria liberdade individual.[...]
Ora, se percorrermos as medidas mais emblemáticas do governo do PS é bom de ver que elas são de esquerda – ou seja, que são rectificativas num sentido igualitário – e não de direita. Por falta de espaço, não é possível fazer aqui uma lista minimamente exaustiva dessas medidas. Mas não é difícil dar alguns exemplos.[...]
Neste domínio, o Governo é um pouco – infelizmente, talvez apenas um pouco – menos estatista do que seria de esperar por parte de um Governo do PS. Mas isso não demonstra que ele seja de direita. Há uma esquerda estatista e uma esquerda liberal. Também há uma direita liberal (que não é apenas sulista e elitista) e uma direita estatista.[...]
O essencial defeito desta geração de líderes do PSD é que nenhum teve propriamente uma educação política que não se resumisse ao contacto com o poder. Foi o poder que os fez, que os inventou e reinventou. Mas, precisamente, uma educação política não se faz no poder. O poder comprime, deforma, vicia. O poder ilude. Uma verdadeira educação política tem de anteceder o poder. Pressupõe um espírito de aprendizagem, um conhecimento da realidade, um distanciamento, um permanente exame da validade das nossas convicções. (...) Infelizmente para ele, Marques Mendes pertence demasiado a uma geração que não teve nunca independência para criar um pensamento político próprio, nunca reflectiu sobre o mundo em que vivia nem sobre as transformações desse mundo, nunca passou pelo choque de realidade que a personalidade exige.
Já é difícil fazer reformas em Portugal. Os grandes ignoram os pequenos. Os instalados perpetuam-se. As elites reproduzem-se com outras elites. Os que estão dentro tapam o caminho aos que estão fora. Mas a nossa grave crise de natalidade ameaça dificultar ainda mais a renovação do País. Tudo seria bem melhor se os portugueses percebessem o que têm de fazer em cada dia. Levantar cedo, pôr os filhos na escola, trabalhar, encher o bucho, trabalhar outra vez, regressar a casa a 60 km/hora, buscar os filhos, ver televisão, dormir. No dia seguinte repetir a dose.
A confusão entre Estado e indivíduo, singularidade e colectividade, massa e cidadão é propícia à classe dirigente. Alguns afáveis intelectuais pensaram (creio que ainda pensam, se é que pensam) vogar no rumo certo da História e têm apoiado, com sistemático enternecimento, o "socialismo moderno". Em Portugal, esta misteriosa designação tem, actualmente, um visível paladino, José Sócrates, epígono do socialismo de turíbulo, defendido com doçura pelo inesquecível António Guterres.Ora, em dois anos de "socialismo moderno" acentuou--se a separação entre nós e eles, entre o espírito da História e uma História sem espírito. Duas linguagens diferentes e incompatíveis, cada vez mais contaminadas pelo ódio e pela indiferença, pelo desdém e pela resignação. O novo Estatuto do Jornalista, caucionado por deputados servis, assinala, uma vez ainda, as características destes "socialistas", cujo elevado défice democrático, intelectual, moral, social e cultural causa-nos as maiores preocupações. Subordinar a livre expressão aos critérios de uma decisão que se sobrepõe aos princípios fundamentais da democracia constitui o mais grave atentado, registado depois de Abril, contra a liberdade de informação. Não se trata de uma questão corporativa: é um problema vital.
[...]o debate sobre o conceito de flexigurança emerge da realidade social e não de qualquer conspiração neoliberal. A mudança tecnológica e a globalização não são invenções conspirativas. A deslocalização ou o encerramento de empresas que não resistem aos novos tempos é algo que acontece todos os dias. A flexigurança constitui uma resposta a esta realidade. [...] O grande problema entre nós está na desconfiança que permanece entre empregadores e empregados. Julgo que se trata dos resquícios do mito marxista da luta de classes, no qual ambos os grupos continuam a acreditar, de um modo mais ou menos consciente. Eles acham que as suas relações serão sempre um jogo de soma nula e nunca um jogo de soma positiva. Enquanto assim for, a flexigurança à portuguesa ficará bloqueada. Isso significará que, seguindo uma das duas alternativas acima referidas (no ponto quatro), acabaremos por ter muita flexibilidade e pouca ou nenhuma segurança.
Estranhamente, aqui na terriola não se consegue ter o melhor de dois mundos. Ou se tem governos panhonhas que não se mexem (género Guterres ou Durão), ou se tem governos esforçados, com vontade de mudança, mas que depois acham que toda a gente tem de dobrar a espinha ao seu extraordinário esforço patriótico (género Cavaco ou Sócrates). Uns não fazem nem chateiam; os outros fazem e por isso acreditam sinceramente que lhes devemos estar muito agradecidos por isso. Isto não é falta de cultura democrática - é mesmo falta de cultura de competência. O primeiro-ministro, a ministra da Educação ou o ministro da Saúde acham, à sua maneira, que são special ones - ou, pelo menos, que fazem parte de um special governo, que está finalmente a pôr o País na ordem. E, por isso, não acham graça nenhuma às pequenas rebeldias de indígenas ingratos. Aqui, sim, falta-nos uma terceira via: sermos um dia governados por gente que perceba que reformar é o seu trabalho natural, e que ao mesmo tempo possa ouvir uma crítica sem de imediato soltar os cães.
[Berardo] sabe que vai ter o Estado aos seus pés no momento da sua coroação, quando o CCB abrir as portas ao “seu” museu.
O Museu Berardo é o espelho do “comendador” no seu melhor. A colecção é muito boa, o mérito de quem a fez é inquestionável, o dinheiro que lá está investido é brutal, a consistência artística é inquestionável. Portugal vai ganhar um bom museu, que vai atrair muito visitantes nacionais e internacionais, embora haja museus muito melhores em dezenas de cidades europeias.
Mas ao mesmo tempo, a coleccção vai ser exibida no lugar errado, porque o CCB vai perder toda e qualquer capacidade de exibir outras boas exposições, e vai ter regras que colocaram o Estado português de gatas, como bem explicou a Presidência da República no texto em que sancionou o acordo Estado-Berardo.
(...) em Portugal, normalmente, o capitalismo é reduzido aos “capitalistas” (aos grandes empresários). Mas o capitalismo é muito mais do que isso. É o capitalismo que permite o pluralismo de opiniões, a liberdade individual e, naturalmente, a democracia pluralista. Em Portugal, muitos ainda discutem a democracia de um modo abstracto, como se correspondesse a um destino natural ou a uma convicção partilhada por todos. Não é assim. Para haver democracia, é necessário que haja uma sociedade que crie condições para haver pluralismo e liberdade. São frutos das sociedades ricas e não das pobres. As democracias mais firmes existem nos países onde o capitalismo está mais desenvolvido. Todos os regimes totalitários do século XX, desde a Alemanha nazi à União Soviética, foram impostos por movimentos profundamente “anti-capitalistas”. Ou seja, a democracia é o resultado do capitalismo, e não o contrário. [blod meu]
(a citação foi alongada devido ao reparo feito pelo Miguel Madeira. Espero que desta forma fique claro - para quem não quiser ler o artigo completo - o que invoca JMA quando fala de capitalismo, ou pelo menos aquilo do que ele não está a falar!)
Mas como os políticos portugueses não são responsabilizados pelo que fazem nem punidos por maus actos de gestão, ser presidente da Câmara de Lisboa é suficientemente sexy para justificar a correria. Daí os 12. Daí a confusão. Daí as ideias mais delirantes que já circulam por aí, em busca de uma nesga no telejornal. Querem exemplos? Olhem os dois independentes que supostamente deveriam trazer ideias "frescas". Roseta anda a pregar o conceito de "acupunctura urbana", com o qual pretende salvar a cidade, como se espetar agulhas num cadáver o fizesse ressuscitar. E Carmona escolheu como slogan de campanha "O meu rio é o Tejo. A minha canção é o fado. O meu partido é Lisboa", cuja intepretação freudiana só pode ser esta: eis um lisboeta triste, que mete muita água. Profético, diria eu. [bold meu] João Miguel Tavares, in Diário de Notícias 2007/05/28
(...) a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) deu anteontem à estampa um extraordinário documento com o título “avaliação do pluralismo político-partidário na televisão pública”. (...) esse documento ‘on-line’ e diz “preto no branco” quantas notícias é que a RTP1, RTP 2 e RTPN devem dar sobre o governo e o PS!(...) Tudo isto é estúpido e criminoso. E tudo isto parte de um ministro que não é uma coisa nem outra. Augusto Santos Silva é um ministro perigoso porque tem medo da comunicação social livre. Porque pensa que regular é mandar e condicionar. Porque, no fundo, ainda não aprendeu a viver em liberdade. Eu é que não sei viver de outra maneira. E garanto-lhe, senhor ministro, nunca acatarei uma grelha da sua ERC. [bold meu]
Parece ser uma característica partilhada por diversos madeirenses o uso abusivo do espaço público para ferir gravemente a integridade moral de outrem. As circunstâncias desses aviltamentos agravam-se quando esses indivíduos são movidos por meras questões do foro pessoal, que não fazem parte do espaço público e que por essa mesma razão são despropositadamente publicitadas. Para mais, estas demonstrações de degradação de carácter acontecem de forma muito tosca, evidenciando a natureza daquilo que os move: os pequenos ódios, invejas e azedumes. São meras exposições das obsessões zoófilas e da pequenez de carácter de quem o faz. ### No passado dia 28 de Abril foi publicado um artigo de João MM Castro, no Diário de Notícias da Madeira, intitulado "7 brisas"[artigo apenas disponível para assinantes], que é um exemplo cabal desta degradação de carácter de alguns madeirenses.
À 5ª brisa, JMMC inicia um ataque directo e infame à "secretária" da Orquestra Clássica da Madeira. Como revela acompanhar o trabalho da OCM, parece no entanto, ignorar as funções da pessoa visada, que estão devidamente publicitadas em todos os materiais promocionais, o que revela o claro intuito de menorizar a pessoa em questão.
Prossegue o seu destilar de bílis com a acusação de que a referida pessoa foi "contratada no Porto (aqui não havia nenhuma com o perfil pretendido)" (sic), num desprezível argumento de "a Madeira para os Madeirenses" [ou na versão mais "continental" : "Portugal para os Portugueses"], pondo assim em causa a capacidade de escolha do próprio maestro da OCM.
Mais adiante demonstra uma clara ignorância sobre aquilo que é uma gralha [a falha de uma letra numa palavra, um erro de edição] e um erro ortográfico [quando uma palavra está efectivamente mal escrita, por ignorância de quem a escreve]. Para finalizar JMMC disponibiliza-se para fazer a revisão dos textos da OCM, devidamente munido do prontuário da língua portuguesa, deixando explicito o insulto de analfabetismo que faz à pessoa responsável por essa tarefa. Ora, esta disponibilização por parte de um indivíduo que passa da 5ª brisa para a 7ª, só merece um único comentário: Meu caro JMMC, será melhor rever uns episódios da Rua Sésamo! nota: A pessoa que foi vítima deste ataque vil e mesquinho é uma das pessoas mais competentes e capazes com quem tive o prazer de trabalhar. Felizmente tenho o prazer de a ter entre o grupo dos meus amigos!
A promoção das artes, a aposta na criatividade e no conhecimento, a procura do novo conduzem à qualificação e ao pluralismo. Tornam a vida mais interessante. Valem a pena.
Gonçalo Reis
Um artigo a não perder, na Atlântico de Março. Nas bancas amanhã